Daniel Kroth | Uma Casa Digna de Oscar

Uma casa Digna de Oscar

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Uma casa Digna de Oscar

Vencedor de quatro estatuetas do Oscar 2020, entre elas a de Melhor Filme e a de Melhor Filme Estrangeiro, o longa-metragem sul-coreano “Parasita” tem uma estrela digna de outra estatueta cuja categoria a Academia de Hollywood ainda não previu: Arquitetura.

A Arquitetura tem um papel fundamental na trama e o destaque vai, obviamente, para a Casa da Família Park. A residência é assinada pelo arquiteto ficcional Namgoong Hyeonja, apaixonado pelo sol, que teria desenhado e construído a casa onde morou até o fim de sua vida. No entanto, o projeto é do designer de produção e cenógrafo Lee Ha Jun.

A estética minimalista e contemporânea da construção é fundamental para fazer o contraste social de um tempo em que o símbolo de ascensão não é um bem material, mas o Sol.  Além de trazer à tona questões sociais e de habitação, problemas de urbanismo e de saneamento, o filme mostra que a classe social em que uma pessoa está inserida determina a quantidade de luz natural que ela receberá ao longo da vida. Quanto mais pobre, menores em tamanho e em quantidade serão as suas janelas. A casa de pobre também não tem nada de minimalista. O filme mostra que a situação de gueto é sempre a do acúmulo, a do medo de não ter. Percebe-se que o mínimo como desejo só é possível para quem já desfrutou do muito.

Interessante como o diretor Bong Joon-ho usa a arquitetura para destacar os contrastes sociais e para propor uma reflexão acerca deles. As grandes janelas que integram os belos jardins ao interior da casa; os cômodos amplos e abertos e a decoração sóbria e discreta que contrapõe madeira e tons terrosos, são elementos de destaque na construção formada por blocos interligados que se espalham horizontalmente pelo terreno. A fluidez com que um cômodo se integra a outro é fundamental para a dinâmica do filme onde os personagens estão frequentemente se deslocando entre os ambientes.

Ainda sobre as janelas e o contraste de realidades que elas mostram: a da casa projetada pelo arquiteto – que assiste ao jardim em sua “tela” – e a da casa daquela família pobre que assiste à miséria, ao lixo e ao vizinho bêbado que urina.

Também vale destacar a simbologia das escadas. Elas reorganizam o cenário, ligam os contrastes e são usadas metaforicamente para ressaltar ascensão e queda social.  Na casa da família rica, a suntuosa escada que dá acesso à parte superior casa é uma clara referência a quem está no "topo" da sociedade. Já a da casa da família pobre leva a um nível ainda mais baixo que o da rua, traduzindo decadência.
A arquitetura dessa produção premiada foi personagem fundamental para mostrar o universo da coexistência desse enredo tão rico de simbologias. A casa estonteante, limpa, clara e com vista para um grande jardim e a casa subterrânea, escura e suja onde vivem os protagonistas.

O impacto causado pela casa gera no público a pergunta: “Essa casa existe“?
- Não, ninguém nunca morou nela. Ela só tem o pavimento inferior. Todas as construções do filme foram feitas sob medida. Palmas para o cenógrafo!

26 de Fevereiro de 2020

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